A ascensão das forças conservadoras e nacionalistas na Europa ganha um novo epicentro na cidade alemã de Magdeburgo. Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um partido nacionalista posiciona-se para liderar um governo regional na Alemanha.
Mais de metade dos 27 Estados-membros da União Europeia, da Finlândia à bacia do Mediterrâneo, contam atualmente com governos liderados ou condicionados por partidos que contestam a gestão das fronteiras e a imigração em massa.
Gráfico representativo das alterações no panorama político em vários países da Europa.
A força eleitoral da AfD na Saxónia-Anhalt
Na capital da Saxónia-Anhalt, as últimas sondagens atribuem à Alternativa para a Alemanha (AfD) 41% das intenções de voto para o parlamento regional. O partido, fundado há 13 anos como uma força minoritária de protesto, assume agora o protagonismo absoluto.
A liderança local do partido cabe a Ulrich Siegmund, figura cuja crescente projeção levou a revista Der Spiegel a questionar se este seria o rosto político mais disruptivo do país.
No parlamento federal (Bundestag), a AfD ocupa já 152 dos 630 lugares, afirmando-se como a principal força de oposição a nível nacional.
Manifestação com centenas de participantes a caminho de Berlim a partir da estação de Ostkreuz.
O historiador britânico Timothy Garton Ash sublinha que o impacto migratório registado desde meados da década passada constitui a causa mais direta do crescimento eleitoral da formação política.
Para o professor Andreas Rödder, especialista em história contemporânea na Universidade de Mainz, o chamado “cordão sanitário” erguido pelos partidos tradicionais, com a CDU à cabeça, dificilmente travará a AfD de chegar ao poder executivo.
Concentração política junto à Catedral de Magdeburgo no dia 5 de setembro.
O desgaste das decisões de 2015 e a memória local
A trajetória de crescimento da AfD intensificou-se depois de 2015, quando a então chanceler Angela Merkel abriu as portas do país a 1,3 milhões de requerentes de asilo, na maioria em fuga do conflito na Síria, sob o lema «Nós conseguimos».
Hoje, a União Democrata-Cristã (CDU) enfrenta o descontentamento persistente do eleitorado perante os desafios de integração e segurança resultantes desse período.
A antiga chanceler alemã Angela Merkel, fotografada em Lisboa a 9 de julho.
Na memória coletiva de Magdeburgo permanecem episódios traumáticos. Em 2016, uma estudante de 19 anos foi vítima de violação coletiva por três homens afegãos residentes num centro de acolhimento.
Mais recentemente, em 2024, o atropelamento indiscriminado no mercado de Natal da cidade feriu 309 pessoas e causou seis vítimas mortais, num ataque perpetrado por um cidadão de origem saudita condenado a prisão perpétua.
O voto jovem e o recurso à história
As mensagens da AfD nas redes sociais encontram forte adesão junto dos eleitores mais jovens, para quem o período nazi é visto como um passado distante.
Surgem nas ruas cartazes com o lema «Mais Bismarck, menos Hitler», apelando a um programa escolar focado nos feitos do Chanceler de Ferro do século XIX, artífice da unificação alemã e dos primeiros sistemas públicos de pensões e saúde.
Em Haldensleben, arredores de Magdeburgo, o operário fabril Elias Megankoth, de 18 anos, defende que quem comete crimes deve enfrentar penas de prisão ou expulsão imediata do território alemão.
Max Reinecke, com 17 anos, assistiu a reuniões de várias forças políticas e assegura que votará na AfD aos 18, apontando o impacto da imigração no quotidiano escolar e comunitário como o fator determinante para a sua escolha.
Do lado das comunidades imigrantes, a apreensão cresce. Babe Fall, estafeta de 31 anos natural do Mali, manifesta receio de agressões caso o partido assuma a liderança regional.
O mesmo sentimento de inquietação é relatado por comerciantes no centro da cidade, incluindo profissionais sírios e afegãos que temem ordens de repatriamento e alterações drásticas no seu estatuto de residência.
Acampamentos improvisados junto à Praia de Trampoline, no enclave espanhol de Ceuta.
O reflexo da pressão fronteiriça no resto do continente
A tensão observada na Alemanha espelha um movimento generalizado em solo europeu. Em França, a União Nacional de Marine Le Pen lidera as sondagens para as presidenciais, propondo um referendo sobre o uso do véu islâmico no espaço público.
Em Espanha, a entrada de milhares de pessoas em Ceuta a partir de Marrocos intensificou a contestação interna e as críticas diplomáticas, com 22 países da União Europeia a questionarem a gestão fronteiriça do executivo espanhol.
Cidadãos em protesto contra a entrada contínua de migrantes em julho.
As sondagens em Espanha indicam que uma eventual união parlamentar entre o Partido Popular e o Vox alcançaria maioria absoluta no parlamento de Madrid, abrindo caminho a reformas constitucionais e a um aperto nas regras migratórias.
O ciclo político europeu caminha para uma nova etapa, marcada pela revisão das políticas de asilo e pelo avanço expressivo de forças conservadoras nas urnas.






