Philip Nitschke, o médico australiano conhecido como “Dr. Morte”, optou por deixar o seu novo dispositivo de eutanásia nos Países Baixos antes de viajar para o Reino Unido. O fundador da organização Exit International temia que o objeto fosse confiscado pelas autoridades alfandegárias britânicas.
A deslocação a Londres tinha como objetivo apresentar o dispositivo num evento público. A iniciativa ocorreu num momento de tensão política, poucos dias antes de o parlamento britânico debater a proposta de lei sobre a morte medicamente assistida.
O médico Philip Nitschke, fundador da organização Exit International.
O funcionamento do dispositivo Kairos
O aparelho, batizado de “Kairos”, baseia-se num sistema mecânico de dois balões. Quando acionados, estes exercem pressão direta sobre as artérias carótidas, bloqueando o fluxo sanguíneo cerebral e provocando a perda de consciência imediata seguida de morte.
Segundo Nitschke, o primeiro teste prático do colar está previsto para a Suíça, onde uma mulher será a primeira pessoa a utilizá-lo. O clínico admitiu que perder o protótipo nesta fase atrasaria significativamente o projeto.
Modelo do colar Kairos, concebido para induzir a morte por pressão nas carótidas.
“Deixei o equipamento na Holanda. Temia que fosse retido na alfândega”, afirmou o médico. “Existe pressão das autoridades, que nos acusam de fornecer informação perigosa a pessoas vulneráveis.”
Pressão política em Westminster
Vários deputados britânicos e grupos de ativistas apelaram diretamente à ministra do Interior, Shabana Mahmood, para barrar a entrada de Philip Nitschke no país. O médico desvalorizou os protestos, atribuindo a adesão ao evento à estagnação do processo legislativo britânico.
Philip Nitschke em conferência pública sobre a tecnologia do dispositivo Kairos.
O modelo helvético e as dúvidas legais
O encontro em Londres contou também com a participação de Carlos Cabrera, representante da clínica suíça de eutanásia Athanasios. O responsável detalhou o enquadramento jurídico suíço, que não exige doença terminal para a realização do procedimento, bastando capacidade mental comprovada.
Cabrera revelou que entre 40 e 60 cidadãos britânicos já recorreram aos serviços da sua organização para terminar a vida. Questionado por familiares presentes sobre eventuais processos criminais no regresso ao Reino Unido, o representante garantiu que as autoridades helvéticas não partilham dados confidenciais com entidades externas.
Philip Nitschke no interior da cápsula de suicídio Sarco em 2024.
Após as intervenções teóricas, grande parte da plateia permaneceu no local para uma sessão prática sobre métodos de fim de vida orientada por Nitschke. Todos os participantes tiveram de assinar termos de responsabilidade declarando ausência de coação ou influência direta antes de aceder à sessão.




