Morreu aos 83 anos Gracindo Jr., ator pioneiro que inaugurou a TV Globo há quase 6 décadas

O ator e realizador brasileiro Gracindo Jr.

O ator e realizador Gracindo Jr. faleceu na noite de terça-feira (1 de outubro), na sua casa no Rio de Janeiro. Aos 83 anos, o artista sucumbiu a causas naturais, facto confirmado à imprensa pelo seu filho, Pedro Gracindo.

Com mais de 50 anos inteiramente dedicados às artes, foi uma das figuras centrais da fundação da ficção televisiva no Brasil. Chegou mesmo a participar na inauguração oficial da TV Globo, em 1965.

Gracindo Jr., ator e diretor que participou da inauguração da TV Globo, morre no Rio aos 83 anos
O ator e realizador Gracindo Jr., que participou na inauguração da emissora brasileira, aos 83 anos.

A despedida de um histórico

O velório do ator abriu ao público esta quinta-feira (3 de outubro) no Crematório e Cemitério da Penitência, no Rio de Janeiro. A cerimónia começou ao meio-dia, seguida pelo processo de cremação da parte da tarde.

O artista deixa a mulher, Daisy Poli, com quem estava casado há mais de meio século. A sua descendência estende-se a cinco filhos e sete netos.

Gracindo Jr. em registro compartilhado nas redes sociais. — Foto: Reprodução/Instagram/Ator Gracindo Jr.
Registo de Gracindo Jr. partilhado nas redes sociais.

Uma dinastia da representação

Nascido Epaminondas Xavier Gracindo a 21 de maio de 1943, o ator carregava o peso de um nome histórico. Era filho de Paulo Gracindo, um dos nomes mais sonantes da era dourada da rádio e da televisão no Brasil.

Ainda chegou a frequentar o curso de Psicologia, mas nunca exerceu a profissão. Aos 15 anos, em 1959, prestou provas para a Rádio Nacional, emissora onde o pai já brilhava como galã de radionovelas.

Foi aprovado e rapidamente acumulou funções de ator, redator e disc-jóquei. Em 1961, estreou-se nos palcos do teatro com a peça “A Escada”, assinada por Oswald de Andrade.

Gracindo Jr. em depoimento ao Memória Globo. — Foto: Foto: Frame de vídeo/Memória Globo
Gracindo Jr. durante a gravação de um depoimento público sobre a sua carreira.

A ascensão no ecrã e a passagem por Portugal

A entrada na TV Globo aconteceu nos primórdios da estação. Assinou contrato em dezembro de 1964, quatro meses antes da emissão inaugural ir para o ar.

Nos primeiros anos, integrou elencos de tramas como “Rosinha do Sobrado” (1965), “Padre Tião” (1966) e “A Rainha Louca” (1967).

Gracindo Jr. na novela
O ator caracterizado no cenário da telenovela “Rosinha do Sobrado”.

O auge da cumplicidade televisiva com o seu pai deu-se na década de 70. Contracenaram diretamente em “Os Ossos do Barão” e “O Bem Amado”, ambas transmitidas em 1973.

Contudo, foi em “O Casarão” (1976) que viveram um momento singular: pai e filho interpretaram as versões jovem e idosa do mesmo protagonista, João Maciel.

Morreu aos 83 anos Gracindo Jr., ator pioneiro que inaugurou a TV Globo há quase 6 décadas

Gracindo Jr. e o pai, o também ator Paulo Gracindo, durante a novela
Gracindo Jr. e o seu pai, o também ator Paulo Gracindo, durante uma produção televisiva conjunta.

Logo após concluir as gravações deste projeto, Gracindo Jr. decidiu passar uma temporada a viver em Portugal, num período de transição que viria a anteceder uma viragem técnica no seu percurso.

O salto para a realização

De regresso ao Brasil, assumiu em 1978 o cargo de supervisor do núcleo de telenovelas das 18h na TV Globo. O seu primeiro desafio nos bastidores foi “A Sucessora”, obra de Manoel Carlos, onde orientou edição e desempenho de atores.

Em 1979, estreou-se formalmente como realizador nas tramas “Memórias de Amor” e “Marron-Glacé”. Nos anos seguintes, expandiu o seu alcance, entrando na comédia e entretenimento musical.

Gracindo Jr. dirigindo o programa
Gracindo Jr. a exercer funções de realização nos estúdios do formato “Os Trapalhões”.

A partir de 1983, assumiu a batuta diretiva do histórico formato “Os Trapalhões”. Em paralelo, dirigiu e apresentou os primeiros videoclipes musicais produzidos pelo magazine noturno “Fantástico”.

Gracindo Jr. em
O ator no cenário televisivo do programa “O Sítio do Picapau Amarelo”.

Rostos marcantes na teledramaturgia

O ator transferiu-se temporariamente para a TV Manchete em 1984, estação onde cimentou o seu estatuto em obras como “Dona Beija”.

No regresso à emissora original, eternizou vilões e figuras politicamente controversas no ecrã. Destacam-se papéis como Creonte, na novela “Mandala” (1987), e Ricardo Ribeiro em “O Salvador da Pátria” (1989).

Gracindo Jr. na série
Gracindo Jr. numa produção televisiva datada de 1985.

A década de 90 foi ritmada por uma avalanche de convites televisivos. Marcou presença em “Araponga”, “Rainha da Sucata” e em “Explode Coração” (1995).

Maitê Proença e Gracindo Jr. — Foto: Reprodução
A atriz Maitê Proença contracena com Gracindo Jr.

No virar do milénio, integrou projetos de peso como “Celebridade” (2003) na Globo, antecedendo uma transição para a rede Record em 2006, onde gravou produções como “Poder Paralelo” (2009) e a minissérie bíblica “Rei Davi” (2012).

Gracindo Jr. em
Gracindo Jr. no exercício da representação durante as gravações televisivas.

Além do imenso currículo nos estúdios televisivos, o artista brasileiro esteve à frente de mais de 20 peças de teatro ao longo da vida. No grande ecrã, rodou filmes conhecidos do público, incluindo “A Selva” (2004) e a adaptação do clássico de Eça de Queiroz “Primo Basílio” (2006).

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