De 23 para 26 letras: o motivo pelo qual k, w e y estiveram banidos do português até 1990

De 23 para 26 letras: o motivo pelo qual k, w e y estiveram banidos do português até 1990

Quem frequentou a escola primária em Portugal antes de 2009 aprendeu a recitar um alfabeto com apenas 23 letras. Durante a maior parte do século XX, o k, o w e o y estiveram formalmente banidos do sistema de escrita oficial português.

A exclusão não impedia o seu aparecimento esporádico no quotidiano, mas a norma ortográfica retirava-lhes a legitimidade de letras plenas da língua.

A reforma de 1911 e o corte de três letras

A decisão de encurtar o alfabeto foi deliberada. Em Portugal, a Reforma Ortográfica de 1911 eliminou as três letras com o objetivo de simplificar e fonetizar a escrita, afastando excessos etimológicos herdados do grego e do latim. O Brasil seguiu o mesmo caminho em 1943.

Durante décadas, o inventário oficial de letras passou a saltar diretamente do J para o L e do X para o Z. A língua escrita procurava uma identidade mais uniforme, cortando laços visuais com convenções estrangeiras.

A tolerância para termos técnicos e estrangeirismos

Mesmo banidas da lista oficial, a lei linguística foi obrigada a criar exceções para impedir contradições lógicas na ciência, na geografia e no comércio internacional.

Nomes próprios e convenções internacionais

As três letras mantinham-se autorizadas em nomes próprios estrangeiros e palavras derivadas deles, como Charles Darwin e darwinismo. Nenhum editor podia substituir o W original sem desfigurar a identidade da pessoa citada.

O mesmo critério aplicava-se a símbolos internacionais e unidades de medida, como o símbolo químico do potássio (K) e a abreviatura de quilómetro (km). Também moedas estrangeiras, como o kwanza de Angola, mantiveram a grafia intacta.

O Acordo Ortográfico de 1990 e a reintegração formal

A reintegração formal ocorreu com a assinatura do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa a 16 de dezembro de 1990, em Lisboa. Os países lusófonos fixaram nessa data um alfabeto comum de 26 letras.

Segundo a Academia Brasileira de Letras, o acordo limitou-se a institucionalizar aquilo que já acontecia na prática. Os dicionários e o vocabulário quotidiano já recolhiam sistematicamente vocábulos com estas três consoantes.

A transição levou o seu tempo. Em Portugal, a aplicação do acordo deu-se de forma faseada a partir de 2009, o que levou gerações inteiras a mudar de hábitos ortográficos já na idade adulta.

A singularidade sonora do Y

Com a expansão para 26 caracteres, o conjunto de vogais canónicas manteve-se inalterado em cinco: a, e, i, o e u.

O y, conforme nota o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, manteve um perfil particular. Dependendo da estrutura da palavra e da sua proveniência, pode assumir a função de vogal, de semivogal ou até de consoante.

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