A quinta onde viveram os artistas plásticos Lourdes Castro e Manuel Zimbro, no Caniço, na Madeira, está no mercado por 4,1 milhões de euros. O terreno tem 12.330 metros quadrados e compreende a moradia e o extenso jardim botânico que o casal desenvolveu a partir de 1983.
Lourdes Castro (1930-2022) foi uma das figuras centrais da arte contemporânea portuguesa, reconhecida além-fronteiras pelo trabalho pioneiro em torno das sombras. Regressou à ilha natal após décadas em Paris, transformando o espaço exterior da casa numa extensão da sua própria criação.
A quinta e jardim criados por Lourdes Castro e Manuel Zimbro na Madeira.
Mercado imobiliário e a hipótese de uma Casa-Museu
A comercialização da propriedade está a cargo de imobiliárias de luxo, como a Sotheby’s International Realty. O anúncio destaca a classificação do solo como área de média densidade, sublinhando o potencial para desenvolvimento turístico ou construção de condomínio de moradias, embora sugira em simultâneo a conversão do imóvel num museu de homenagem à criadora.
O atual proprietário é Nuno Brazão, sobrinho da artista, que suporta os encargos correntes da quinta. O herdeiro confirma que o custo anual de conservação da casa e do jardim é elevado e mantém a abertura para soluções institucionais.
“A casa é um imóvel privado que está à venda pelo preço de mercado. Qualquer proposta concreta e real de qualquer instituição pública ou privada faz todo o sentido dentro dos valores em causa”, afirmou Nuno Brazão, acrescentando que a modalidade de arrendamento também pode ser ponderada para viabilizar um projeto cultural.
A salvaguarda do espólio artístico
A coleção de obras de arte deixada por Lourdes Castro já se encontra em segurança institucional. As peças estão depositadas no Museu de Arte Contemporânea da Madeira (Mudas) e distribuídas por várias fundações portuguesas.
O arquivo documental da artista, que exige um processo mais detalhado de catalogação, está a ser trabalhado em articulação direta entre a família, o Mudas e o Governo Regional da Madeira.
Propriedade dos artistas plásticos colocada no mercado imobiliário.
Silêncio institucional e as palavras da artista
Questionado sobre a eventual compra do imóvel para a rede pública, o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto indicou ter tido conhecimento do processo pela comunicação social, sem adiantar intenções de intervenção. A Fundação Calouste Gulbenkian e a galerista Cecília Vieira de Freitas, amiga próxima do casal, não quiseram comentar a transação.
Em 2019, questionada sobre a hipótese de o seu refúgio se transformar um dia numa casa-museu aberta ao público, Lourdes Castro desdramatizou o destino do local.
“Não, não penso nisso. Se quiserem fazer… Um dia tudo isto será mostrado. Tenho cá as minhas coisas e vai-se ver”, respondeu na altura a criadora, que já então delegava a rega do jardim devido à perda de forças, preferindo chamar à velhice uma fase de “altitude”.


