Gloria Steinem, a jornalista e ativista norte-americana cujo trabalho impulsionou os direitos das mulheres à escala global, morreu aos 92 anos. A notícia foi confirmada através de um comunicado divulgado na sua página oficial de Instagram.
Segundo a nota, Steinem faleceu de forma pacífica na sua residência em Nova Iorque, rodeada por pessoas próximas. O comunicado destaca quase um século de dedicação contínua à causa da igualdade cívica e social.
À porta da sua habitação em Manhattan, no Upper East Side, admiradores reuniram-se logo pela manhã para depositar flores e mensagens de tributo àquela que é considerada uma das vozes mais marcantes da história contemporânea dos direitos humanos.
Das reportagens de choque à fundação da revista Ms.
Nascida no Ohio em 1934, Steinem cresceu numa caravana e viveu de perto as dificuldades financeiras e o estigma da doença psiquiátrica da mãe. Após concluir a licenciatura em 1956, viveu dois anos na Índia a trabalhar no Supremo Tribunal local antes de regressar aos Estados Unidos.
O seu primeiro trabalho de grande impacto surgiu em 1962 na revista Esquire, com uma investigação sobre o impacto da contraceção nas escolhas profissionais femininas. No ano seguinte, infiltrou-se durante 11 dias como “coelhinha” no Playboy Club de Hugh Hefner para denunciar as condições degradantes e a exploração laboral vivida pelas funcionárias.
Gloria Steinem fotografada em 1977.
Em 1968, passou a integrar a equipa da New York, publicação onde cunhou a expressão “liberdade reprodutiva” ao cobrir protestos a favor do aborto no Greenwich Village. A sua experiência pessoal na juventude impulsionou o envolvimento direto na defesa da autodeterminação física das mulheres.
Autora de nove livros, Steinem aliou-se à ativista Dorothy Pitman Hughes para fundar, em 1971, a revista Ms., a primeira publicação abertamente feminista gerida por mulheres no mercado comercial norte-americano. A edição de estreia ostentava a personagem Wonder Woman na capa, exigindo a reposição da identidade independente da heroína.
Gloria Steinem à esquerda e a escritora Dorothy Pitman Hughes.
Frentes de combate e posições controversas
Steinem utilizou a sua projeção mediática para amplificar lutas frequentemente marginalizadas pela opinião pública. Participou em campanhas contra a mutilação genital feminina, combateu o racismo estrutural ao lado de ativistas negras e foi detida em 1984 durante um protesto contra o apartheid em Washington.
Revisão de posições e percurso pessoal
A sua trajetória integrou também momentos de aceso debate público. Em 1998, escreveu um artigo de opinião no The New York Times a desvalorizar as acusações de assédio sexual contra Bill Clinton, posição que reviu publicamente anos mais tarde ao afirmar que a prioridade devia recair sobre o testemunho das vítimas.
No plano pessoal, sobreviveu a um cancro de mama diagnosticado em 1986 e a uma nevralgia do trigémio identificada em 1994. Casou-se em 2000 com o ativista David Bale, pai do ator Christian Bale, com quem manteve proximidade familiar até ao final da vida.
Em janeiro de 2017, copresidiu à Marcha das Mulheres em Washington, que reuniu multidões em contestação direta às políticas conservadoras que emergiam na política dos Estados Unidos.


