ONU aprova novo mapa-múndi por 164 votos e põe fim a 455 anos da projeção de Mercator

Mapa-múndi tradicional com a projeção cartográfica de Mercator

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a resolução “Correct the Map”, que recomenda o abandono da tradicional projeção de Mercator em prol da projeção “Equal Earth”. O texto contou com 164 votos a favor, apenas um voto contra, dos Estados Unidos, e seis abstenções de Sérvia, Estónia, Geórgia, Lituânia, Moldávia e Ucrânia.

A iniciativa, apresentada pelo Togo e apoiada pela União Africana, culmina anos de pressão diplomática contra o que vários governos classificam como “colonialismo cartográfico”. A nova carta geográfica altera significativamente o equilíbrio visual do planeta, aumentando a dimensão de África e reduzindo a representação de potências como o Reino Unido e os Estados Unidos.

The UN has voted to replace the centuries-old Mercator map (pictured) with one that vastly increases the size of Africa - while shrinking the UK and US
A projeção clássica de Mercator utilizada globalmente desde o século XVI.

A distorção de 14 vezes entre a Gronelândia e África

Concebida em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator, a projeção clássica servia para auxiliar a navegação marítima europeia por bússola. Contudo, ao transferir a superfície esférica da Terra para um plano, esticou desproporcionalmente as massas terrestres junto aos polos e encolheu as zonas equatoriais.

Na projeção de Mercator, a Gronelândia aparenta ter a mesma área do continente africano. Na realidade geográfica, África é 14 vezes maior do que a Gronelândia.

Graphic showing how the Mercator map increases the apparent size of countries in the northern hemisphere, while shrinking those near the equator
Gráfico comparativo que ilustra as distorções de tamanho na projeção de Mercator face à realidade.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Togo, Robert Dussey, defendeu a mudança perante o plenário: “Um mundo justo começa com um mapa justo. Os mapas moldam o entendimento do mundo, orientam a educação e influenciam perceções coletivas”.

A resolução da ONU não proíbe o modelo antigo por imposição legal, mas encoraja governos, instituições de ensino, empresas e organismos internacionais a utilizarem a projeção Equal Earth.

The General Assembly has accepted the
A projeção Equal Earth aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Oposição solitária de Washington e apoios na Europa

A representante dos Estados Unidos junto da ONU, Yaryna Ferencevych, criticou a votação em plenário, afirmando que o organismo se desviou das suas funções principais de paz e segurança para debater modelos do século XVI orientados para a dita “justiça cognitiva”.

Em contraste, o ministro dos Negócios Estrangeiros de França, Jean-Noël Barrot, assinalou publicamente que mudar a representação cartográfica “não altera o mundo, mas corrigir um modelo distorcido é já um ato de verdade”.

A organização pan-africana Africa No Filter celebrou a decisão. Para a porta-voz Lerato Mogoatlhe, a sub-representação histórica de África alimentou décadas de desinformação sobre o verdadeiro peso demográfico, territorial e económico do continente.

Gerhardus Mercator (1512-1594)
Retrato histórico do cartógrafo flamengo Gerhardus Mercator (1512-1594).

Como funciona a projeção Equal Earth

Criada em 2018 por uma equipa de cartógrafos internacionais, a projeção Equal Earth foi desenhada especificamente para reter proporções de área fiéis entre os continentes sem perder a harmonia visual da curvatura terrestre.

Ao contrário do modelo de Mercator, esta alternativa sacrifica a precisão das linhas retas de rumo marítimo, tornando-se desadequada para navegação pura, mas geometricamente exata para mapas temáticos, salas de aula e plataformas digitais.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *